{"id":10762,"date":"2016-08-18T14:29:03","date_gmt":"2016-08-18T17:29:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/?p=10762"},"modified":"2016-08-18T14:29:03","modified_gmt":"2016-08-18T17:29:03","slug":"cortella-diz-qual-e-o-segredo-para-acordar-feliz-na-2a-feira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/carreira\/cortella-diz-qual-e-o-segredo-para-acordar-feliz-na-2a-feira\/","title":{"rendered":"Cortella diz qual \u00e9 o segredo para acordar feliz na 2\u00aa feira"},"content":{"rendered":"<p>Encontrar alegria na carreira \u00e9 um sonho antigo da humanidade. O fil\u00f3sofo chin\u00eas Conf\u00facio (551 a.C.- 479 a.C) j\u00e1 arriscava um plano: \u201cBusque um trabalho que voc\u00ea ame, e nunca mais ter\u00e1 que trabalhar um dia em sua vida\u201d.<\/p>\n<p>No Brasil de 2016, o velho ideal parece especialmente distante. Combine crise econ\u00f4mica, instabilidade pol\u00edtica, conflitos sociais e desemprego galopante, e est\u00e1 pronta a receita de veneno para a motiva\u00e7\u00e3o de qualquer profissional.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo, educador e palestrante M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella, os problemas conjunturais do pa\u00eds t\u00eam impacto ineg\u00e1vel sobre a disposi\u00e7\u00e3o do brasileiro para o trabalho. Mas o des\u00e2nimo para levantar na segunda-feira de manh\u00e3 tamb\u00e9m admite outras explica\u00e7\u00f5es, inclusive de natureza existencial.<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva a EXAME.com, o estudioso discute os mecanismos por tr\u00e1s da motiva\u00e7\u00e3o para o trabalho, o segredo para encontrar alegria na obriga\u00e7\u00e3o, entre outras quest\u00f5es centrais de seu novo livro, \u201cPor que fazemos o que fazemos?\u201d (Editora Planeta, 2016).<\/p>\n<p>Na conversa, Cortella desconstr\u00f3i o mito de que rotina e felicidade n\u00e3o se misturam, mas d\u00e1 um pux\u00e3o de orelha nos jovens que s\u00f3 esperam fazer o que gostam em suas carreiras. \u201c\u00c9 preciso ter o prazer como uma das refer\u00eancias para o trabalho, mas n\u00e3o como refer\u00eancia exclusiva\u201d, afirma. \u201cSempre \u00e9 necess\u00e1rio um desgaste para que voc\u00ea atinja um resultado\u201d.<\/p>\n<p>Confira a seguir os principais trechos da conversa com o fil\u00f3sofo, em que ele diz o que pensa sobre temas como prop\u00f3sito, obsess\u00e3o pela carreira e equil\u00edbrio entre lazer e trabalho:<br \/>\n<strong>EXAME.com &#8211; Em seu novo livro, voc\u00ea discute uma das maiores fontes de mal-estar do mundo contempor\u00e2neo: a dificuldade de encontrar motiva\u00e7\u00e3o para o trabalho. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o sentida especialmente pelos jovens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella &#8211; <\/strong>Antes de tudo, \u00e9 preciso\u00a0distinguir motiva\u00e7\u00e3o e incentivo. Motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 aquilo que move, que movimenta, como um motor. \u00c9, portanto, algo interno, precisa estar dentro de n\u00f3s. \u00c9 poss\u00edvel incentivar outra pessoa, dar est\u00edmulos. Mas n\u00e3o d\u00e1 para motiv\u00e1-la.<\/p>\n<p>Hoje, o jovem tem esse \u201cmotor interno&#8221; pouco acelerado em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho. As gera\u00e7\u00f5es anteriores, ao contr\u00e1rio, viam no trabalho uma obrigatoriedade, porque n\u00e3o dava para viver sem trabalhar e era preciso come\u00e7ar cedo.<\/p>\n<p>Acontece que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o Brasil construiu condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mais s\u00f3lidas e uma parcela das fam\u00edlias decidiu que iria subsidiar a aus\u00eancia de ganho dos seus filhos. Isso faz com que o jovem tenha uma motiva\u00e7\u00e3o muito menor. Se eu tenho 18, 19 anos, por que investir na carreira, se posso dedicar o meu tempo ao lazer?\u00a0Uma parte dos pais e m\u00e3es enfraqueceu a forma\u00e7\u00e3o dos filhos nessa dire\u00e7\u00e3o. Sob o pretexto de poup\u00e1-los, produziu e produz um efeito que \u00e9 danoso.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nEXAME.com &#8211; E agora? O que faz um jovem ter disposi\u00e7\u00e3o para acordar na segunda-feira de manh\u00e3 e ir trabalhar feliz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella &#8211; <\/strong>Em primeiro lugar, o prop\u00f3sito. Ele s\u00f3 ficar\u00e1 motivado se enxergar que aquilo para que vai se esfor\u00e7ar tem uma finalidade clara para ele.<\/p>\n<p>Reconhecimento tamb\u00e9m \u00e9 essencial, \u00e9 a coisa de que o jovem mais necessita. Ele precisa ser entendido como algu\u00e9m importante, porque a quest\u00e3o autoral se tornou central. O profissional n\u00e3o quer mais ser tratado apenas como uma pe\u00e7a de uma grande m\u00e1quina, ele quer ser autor de algo. \u00c9 a mesma l\u00f3gica da mat\u00e9ria assinada por um jornalista: aparece l\u00e1 o nome dele, mesmo que seja pequenininho. No mundo do trabalho, o reconhecimento se tornou mais importante do que a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nEXAME.com &#8211; Quando falam sobre seus ideais de carreira, muitos jovens dizem que querem \u201cfazer o que gostam\u201d. Eles est\u00e3o confundindo prazer e obriga\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella &#8211; <\/strong>Uma das melhores coisas da vida \u00e9 fazer o que se gosta. S\u00f3 um tonto vai querer fazer algo desagrad\u00e1vel. O que n\u00e3o posso esquecer \u00e9 que, para chegar ao resultado de que eu gosto, h\u00e1 v\u00e1rias etapas pelas quais eu passarei que ser\u00e3o desagrad\u00e1veis. Sempre \u00e9 necess\u00e1rio um desgaste para que voc\u00ea atinja um resultado.<\/p>\n<p>Os nossos medalhistas de ouro na Olimp\u00edada precisaram fazer v\u00e1rias coisas de que n\u00e3o gostavam para chegar ao lugar de que gostaram, que \u00e9 o primeiro lugar do p\u00f3dio. \u00c9 preciso ter o prazer como uma das refer\u00eancias para o trabalho, mas n\u00e3o como refer\u00eancia exclusiva. Se n\u00e3o for assim, haver\u00e1 muita tristeza e frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nEXAME.com &#8211; Por mais prazeroso que seja, qualquer trabalho implicar\u00e1 repeti\u00e7\u00e3o e rotina. \u00c9 poss\u00edvel ter uma rotina prazerosa, ou isso \u00e9 um paradoxo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella &#8211;<\/strong> \u00c9 poss\u00edvel sim. Rotina \u00e9 simplesmente uma forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. N\u00e3o devemos confundir rotina com monotonia. Todos os dias eu levanto cedo, vou para meu escrit\u00f3rio, sento para escrever, dou palestras. \u00c9 uma rotina, isto \u00e9, uma atividade organizada, estruturada. Ela n\u00e3o produzir\u00e1 distra\u00e7\u00e3o nem chatea\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser que vire monotonia.<\/p>\n<p>Quando eu entro num avi\u00e3o, quero que o piloto siga a sua rotina, mas n\u00e3o quero que ele entre num estado de monotonia. A rotina ser\u00e1 prazerosa se eu enxergar o resultado dela como prazeroso. Quando deixa de ser assim, vira monotonia. \u00c9 quando eu n\u00e3o vejo a hora de ir embora, de deixar tudo para tr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nEXAME.com &#8211; O excesso de trabalho est\u00e1 roubando cada vez mais tempo do lazer e da conviv\u00eancia familiar. Num mercado t\u00e3o competitivo, ainda \u00e9 poss\u00edvel ter uma carreira de sucesso sem sacrificar a felicidade em outros \u00e2mbitos da vida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella &#8211;\u00a0<\/strong>\u00c9 evidente que voc\u00ea precisa se dedicar \u00e0 carreira, mas n\u00e3o pode deixar que apenas um aspecto da vida obscure\u00e7a todos os demais. \u00c9 preciso buscar um equil\u00edbrio entre as diversas faces da exist\u00eancia. E esse equil\u00edbrio \u00e9 igual ao necess\u00e1rio para andar de bicicleta: voc\u00ea precisa estar sempre em movimento para n\u00e3o cair.<\/p>\n<p>Equil\u00edbrio significa ser capaz de ir aos extremos sem se perder neles. Voc\u00ea pode ter uma alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada mas, de vez em quando, mergulhar com alegria numa garrafa de vinho, num churrasco. Mas n\u00e3o vai fazer isso todo dia, toda hora. Da mesma forma, quando as pessoas fazem cursinho pr\u00e9-vestibular, elas n\u00e3o t\u00eam fim de semana, n\u00e3o t\u00eam balada, n\u00e3o t\u00eam nada. Mas ningu\u00e9m vai passar o resto da vida fazendo cursinho, se n\u00e3o enlouquece.<\/p>\n<p>Uma pessoa que passa o tempo todo obcecada pela carreira est\u00e1 adoentada. \u00c9 preciso cautela, porque isso vai torn\u00e1-la infeliz. H\u00e1 momentos na vida em que voc\u00ea vai se dedicar mais aos filhos do que \u00e0 sua carreira. Em outros, voc\u00ea precisar\u00e1 trabalhar por 12,13 horas por dia e ficar\u00e1 menos tempo com a fam\u00edlia. O importante \u00e9 n\u00e3o se perder nos extremos, mas saber transitar entre eles.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nEXAME.com &#8211; N\u00e3o vivemos numa cultura que incentiva os extremos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella &#8211; <\/strong>Sem d\u00favida. Existe a ideia de que \u00a0sucesso significa trabalho cont\u00ednuo, que voc\u00ea deve esquecer os outros aspectos da vida. Nossa cultura incentiva isso, suga as pessoas, vai exaurindo suas for\u00e7as, transformando cansa\u00e7o em estresse. O cansa\u00e7o resulta de um esfor\u00e7o intenso. O estresse \u00e9 quando voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o tem compreens\u00e3o do que est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p>No entanto, o que \u00e9 imposto pela cultura n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio. \u00c9 preciso andar na contram\u00e3o dessa ideia e tentar buscar o equil\u00edbrio entre as diversas faces da vida. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/\" target=\"_blank\">Exame.com\u00a0<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontrar alegria na carreira \u00e9 um sonho antigo da humanidade. 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