{"id":15472,"date":"2017-09-18T11:01:03","date_gmt":"2017-09-18T14:01:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/?p=15472"},"modified":"2017-09-18T11:01:03","modified_gmt":"2017-09-18T14:01:03","slug":"o-seu-trabalho-te-deixa-deprimido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/dicas\/o-seu-trabalho-te-deixa-deprimido\/","title":{"rendered":"O seu trabalho te deixa deprimido?"},"content":{"rendered":"<p>Na manh\u00e3 do dia 24 de mar\u00e7o de 2015, um\u00a0<strong>Airbus<\/strong>\u00a0A320 da companhia a\u00e9rea Germanwings, controlada pela Lufthansa, caiu na regi\u00e3o dos Alpes. Os detalhes descobertos nos dias subsequentes chocaram o mundo. De acordo com o \u00e1udio da caixa-preta do avi\u00e3o, o copiloto, Andreas Lubitz, de 28 anos, havia deliberadamente derrubado o voo 4U9525.<\/p>\n<p>Aproveitando-se da sa\u00edda do comandante, Andreas trancou o colega para fora da cabine de controle e acionou o bot\u00e3o de descida da aeronave. Durante 10 minutos, tempo que o avi\u00e3o demorou para se chocar contra as montanhas, o copiloto permaneceu em sil\u00eancio, sem pedir ajuda nem declarar emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Na grava\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel ouvir apenas sua respira\u00e7\u00e3o acelerada. O primeiro pensamento das autoridades alem\u00e3s foi que o acidente teria sido um ato terrorista. Tr\u00eas dias depois, promotores da cidade de D\u00fcsseldorf encontraram na casa de Andreas um atestado m\u00e9dico indicando que o copiloto deveria estar afastado do trabalho, em tratamento para depress\u00e3o, no dia da queda da aeronave.<\/p>\n<p>Tudo sugere que ele escondeu o fato da companhia, e a doen\u00e7a cobrou um pre\u00e7o alto: Andreas suicidou-se levando 150 pessoas consigo.<\/p>\n<p>Claro que esse \u00e9 um caso extremo. Mas dados da\u00a0<strong>Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)<\/strong>\u00a0mostram que, assim como o aviador, 322 milh\u00f5es de pessoas sofriam de depress\u00e3o ao redor do mundo em 2015 \u2014 n\u00famero que aumentou 18,4% desde 2005.<\/p>\n<p>No Brasil, cerca de 5,8% da popula\u00e7\u00e3o t\u00eam a doen\u00e7a, o que faz do pa\u00eds o campe\u00e3o de casos na\u00a0<strong>Am\u00e9rica Latina<\/strong>. Ainda de acordo com a OMS, at\u00e9 2020 o transtorno mental ser\u00e1 a enfermidade mais incapacitante mundialmente.<\/p>\n<p>\u00c9 consenso entre os especialistas que esses dados alarmantes s\u00e3o fruto tanto da evolu\u00e7\u00e3o da medicina, o que possibilita detectar um n\u00famero maior de casos, como tamb\u00e9m do crescimento da incid\u00eancia do problema. \u201cAs pessoas come\u00e7aram a falar sobre o assunto e a buscar ajuda, o que permite que se diagnostique mais. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um aumento real devido ao estresse cr\u00f4nico\u201d, diz M\u00e1rio Louz\u00e3, psic\u00f3logo de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Do ponto de vista cl\u00ednico, a\u00a0<strong>depress\u00e3o<\/strong>\u00a0se diferencia de uma simples tristeza por durar mais tempo e implicar uma queda no n\u00edvel de neurotransmissores, subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que estabelecem a comunica\u00e7\u00e3o entre os neur\u00f4nios.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a surge de uma combina\u00e7\u00e3o entre quest\u00f5es gen\u00e9ticas e ambientais. \u201c\u00c0 hereditariedade, soma-se o fato de que algumas pessoas s\u00e3o mais vulner\u00e1veis aos estressores do cotidiano. Al\u00e9m disso, as mulheres s\u00e3o pelo menos duas vezes mais suscet\u00edveis \u00e0 depress\u00e3o por causa da flutua\u00e7\u00e3o hormonal\u201d, afirma Carmita Abdo, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria (ABP), de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>O trabalho como gatilho<\/strong><\/p>\n<p>O mundo inst\u00e1vel e cheio de op\u00e7\u00f5es em que vivemos tem sua parcela de responsabilidade na cria\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es mais angustiadas. \u201cPerdemos as grandes refer\u00eancias: Estado, religi\u00e3o, justi\u00e7a, uma empresa onde trabalhar\u00edamos a vida toda\u201d, afirma Dorothee Rudiger, professora de direito na Universidade Cat\u00f3lica de Santos, em\u00a0<strong>S\u00e3o Paulo<\/strong>.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, h\u00e1 muita liberdade de escolha. \u201cEssa incerteza e medo levam a uma ang\u00fastia profunda.\u201d E isso se agrava, \u00e9 claro, quando o local de trabalho se mostra problem\u00e1tico. Ambientes competitivos, com maior press\u00e3o por resultados, elevam o risco de desenvolver a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Operadores de telemarketing, banc\u00e1rios e profissionais da \u00e1rea de sa\u00fade s\u00e3o os mais propensos a ter quadros depressivos, mas a doen\u00e7a n\u00e3o se restringe a determinado setor, carreira ou n\u00edvel hier\u00e1rquico.<\/p>\n<p>S\u00f3 em 2016, por exemplo, a\u00a0<strong>Previd\u00eancia Social<\/strong>\u00a0registrou o afastamento de 75 300 trabalhadores por causa de depress\u00e3o, cerca de 37,8% do total de licen\u00e7as por doen\u00e7as mentais. \u201cO desequil\u00edbrio entre o que \u00e9 cobrado dos funcion\u00e1rios e o apoio que a empresa oferece faz com que as pessoas sofram, e isso causa uma degenera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Muitas vezes, o estresse a que o indiv\u00edduo \u00e9 submetido \u00e9 t\u00e3o grande que ele n\u00e3o consegue se recuperar\u201d, diz Jo\u00e3o Silvestre, diretor de rela\u00e7\u00f5es internacionais da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Foi a alta carga de tarefas, acompanhada de uma equipe reduzida e de uma forte cobran\u00e7a por resultados, que fez com que o publicit\u00e1rio Edson Santos, de 34 anos, desenvolvesse um quadro depressivo. Em 2012, o paulista era supervisor de marketing em uma multinacional alem\u00e3 e, durante dois anos, viveu uma rotina que chegava a 20 horas di\u00e1rias no escrit\u00f3rio, sem f\u00e9rias. \u201cN\u00e3o tinha mais tempo para a fam\u00edlia ou para os amigos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Aos poucos, Edson come\u00e7ou a se isolar dos colegas, e os projetos que antes o motivavam perderam o sentido. Em uma das crises mais agudas, sentiu um desespero inexplic\u00e1vel. \u201cTive vontade de fugir, de n\u00e3o voltar mais ao trabalho, de ir para o banheiro chorar\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O quadro teve impacto em seu rendimento e, ap\u00f3s alguns meses, o gestor de Edson o chamou para uma conversa. \u201cEle estava preo\u00adcupado, apontou que at\u00e9 mesmo o jeito de me vestir havia mudado e eu nem tinha percebido. Sugeriu que eu procurasse ajuda.\u201d Edson seguiu o conselho e, quando se consultou com o psiquiatra, recebeu o diagn\u00f3stico de depress\u00e3o. Mas aceitar n\u00e3o foi f\u00e1cil. \u201cEu tinha um bom sal\u00e1rio, uma fam\u00edlia estruturada e me perguntava por que estava deprimido\u201d, diz.<\/p>\n<p>Mesmo sem entender as causas, seguiu o tratamento. Al\u00e9m da terapia e dos rem\u00e9dios, Edson voltou a reservar um tempo para si mesmo, praticando esportes e adotando um c\u00e3o. As mudan\u00e7as o ajudaram a compreender o processo que o levou ao quadro depressivo \u2014 e como a rotina workaholic contribuiu para isso.<\/p>\n<p>Hoje, no cargo de coordenador em outra multinacional, ele diz que o apoio da empresa foi crucial. \u201cEu tinha vergonha de contar e apenas alguns colegas sabiam, mas eles me ajudaram. Como profissional de marketing, fiquei limitado, sem criatividade. Eles me deram suporte\u201d, afirma Edson.<\/p>\n<p><strong>Falta de apoio<\/strong><\/p>\n<p>Casos como o de Edson, em que a empresa, gestores e colegas s\u00e3o compreensivos e ajudam os profissionais que passam por crises de depress\u00e3o infelizmente ainda s\u00e3o raros. \u201cUma lideran\u00e7a humana, que enxergue o funcion\u00e1rio al\u00e9m do n\u00famero do crach\u00e1 \u00e9 exce\u00e7\u00e3o\u201d, afirma F\u00e1tima Macedo, diretora da Mental Clean, consultoria psicol\u00f3gica para empresas, de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Na maioria das situa\u00e7\u00f5es, quem est\u00e1 ao redor n\u00e3o se d\u00e1 conta de que aquele profissional precisa de ajuda \u2014 ainda mais em organiza\u00e7\u00f5es com chefias ultrapassadas, que continuam a carregar aquela vis\u00e3o de \u201cmanda quem pode, obedece quem tem ju\u00edzo\u201d.<\/p>\n<p>Foi o que a fisioterapeuta Tha\u00eds Romanelli, de 36 anos, teve de enfrentar at\u00e9 o fim de 2016, quando trabalhava em um hospital p\u00fablico de S\u00e3o Paulo. Ela entrou na empresa assim que saiu da faculdade e, durante 13 anos, permaneceu na institui\u00e7\u00e3o. Embora percebesse que a rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava desgastada, as coisas se intensificaram no ano passado. \u201cFui transferida de unidade e de chefe, sem muitas explica\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o me adaptei\u201d, diz Tha\u00eds.<\/p>\n<p>Como o atendimento nesse novo ambiente se limitava a um dia da semana, a fisioterapeuta continuou levando a situa\u00e7\u00e3o, sem perceber quanto isso lhe fazia mal. Nesse meio-tempo Tha\u00eds venceu, ao lado de uma colega, um concurso para\u00a0<strong>startups<\/strong>\u00a0na \u00e1rea da sa\u00fade e criou a Soulvox, plataforma que cria vozes para pessoas que n\u00e3o conseguem falar, o que significou cuidar de duas carreiras. \u201cTodos os dias eu ia dormir \u00e0s 3 horas da manh\u00e3, acordava \u00e0s 7, ia trabalhar, voltava e continuava me dedicando \u00e0s pesquisas. Sem contar os fins de semana virados\u201d, diz.<\/p>\n<p>O problema chegou ao \u00e1pice quando a gestora de Tha\u00eds pediu a ela que trabalhasse mais um dia na unidade onde n\u00e3o havia se adaptado. \u201cEu j\u00e1 estava cansada da rotina entre empreendedora e empregada. Junto com o esgotamento que vinha acumulando, tive uma crise de choro.\u201d Mesmo argumentando que n\u00e3o havia se integrado ao novo local, n\u00e3o houve jeito. \u201cEu me senti desrespeitada. Foi a primeira vez que me posicionei sobre algo que estava me incomodando e fui completamente ignorada\u201d, afirma a fisioterapeuta. Percebendo que n\u00e3o estava bem, resolveu procurar ajuda.<\/p>\n<p>Tha\u00eds foi diagnosticada com depress\u00e3o leve, e a psiquiatra foi taxativa quanto ao motivo que a levou \u00e0quele estado: excesso de trabalho. \u201cComecei a me perguntar: vale a pena ficar tomando rem\u00e9dio e prejudicando minha sa\u00fade por causa daquele lugar?\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o afastamento m\u00e9dico de um m\u00eas, ela deixou o emprego. \u201cNo fim de 2016, percebi que ainda n\u00e3o estava 100% e aproveitei o tempo livre para me dedicar mais \u00e0 Soulvox.\u201d Hoje, mesmo n\u00e3o tendo ainda reequilibrado as finan\u00e7as, ela n\u00e3o se arrepende da mudan\u00e7a. \u201cFoi a melhor decis\u00e3o que tomei. Sempre fui movida por prop\u00f3sito, mas, num cen\u00e1rio em que eu atendia quatro pacientes quase ao mesmo tempo, era imposs\u00edvel. Com minha empresa, recuperei a paix\u00e3o pelo que fa\u00e7o\u201d, afirma Tha\u00eds.<\/p>\n<p><strong>O custo da doen\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Muita gente acha que a\u00a0<strong>depress\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 apenas um problema de sa\u00fade, mas \u00e9 mais do que isso. O dist\u00farbio representa perdas para a economia, para as empresas e para a sociedade. Segundo um estudo de 2016 da London School of Economics, os preju\u00edzos relacionados \u00e0 produtividade causados pela doen\u00e7a chegam a 246 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano em todo o mundo.<\/p>\n<p>No Brasil, esse valor alcan\u00e7a 63,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, menor apenas do que nos Estados Unidos, que t\u00eam uma perda anual de 84,7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Por aqui, a doen\u00e7a \u00e9 a terceira maior causa de afastamentos pelo INSS. \u201cA depress\u00e3o tem custos diretos e indiretos. O absente\u00edsmo e o presente\u00edsmo s\u00e3o alguns dos custos sociais. Mas ela tamb\u00e9m onera os cofres p\u00fablicos nas \u00e1reas de sa\u00fade e previd\u00eancia social\u201d, diz Quirino Cordeiro, coordenador de sa\u00fade mental do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Algumas empresas j\u00e1 come\u00e7aram a fazer essa conta e perceberam que prevenir \u00e9 melhor do que remediar. A rede de laborat\u00f3rios de medicina diagn\u00f3stica Fleury \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p>Em 2013, a companhia mapeou o perfil de sa\u00fade de 65% de seus funcion\u00e1rios \u2014 7 000 pessoas na \u00e9poca. O resultado foi assustador. Os \u00edndices de sa\u00fade mental dos empregados estavam piores do que, por exemplo, os dos policiais civis, dos professores ou at\u00e9 de pessoas que trabalham em UTI. \u201cEsses n\u00fameros alertaram para o estresse na empresa. Com isso, a sa\u00fade mental, ao lado do sedentarismo e de doen\u00e7as osteomusculares, tornou-se um de nossos principais alvos de atua\u00ad\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Thiago Rodrigues, consultor de gest\u00e3o em sa\u00fade do Fleury.<\/p>\n<p>A empresa passou a oferecer sess\u00f5es de atendimento psicol\u00f3gico nos diversos ambulat\u00f3rios do grupo. Os casos mais graves s\u00e3o encaminhados a outros profissionais de sa\u00fade mental para tratamentos mais longos. \u201cOs trabalhadores devem procurar o servi\u00e7o ou o RH pode indicar uma terapia de grupo quando detecta algum problema coletivo\u201d, diz Thiago.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o projeto realizou 1 397 atendimentos e diminuiu o tempo de afastamento por doen\u00e7as mentais em 29,5 dias \u2014 uma economia anual de quase 97 000 reais. \u201cAtuamos no setor de servi\u00e7os, ent\u00e3o o pre\u00e7o de uma baixa produtividade \u00e9 alt\u00edssimo. Uma pessoa deprimida, ansiosa, n\u00e3o consegue atender bem, e aquele cliente pode nunca mais voltar. E somos uma companhia de sa\u00fade \u2014 esse cuidado precisa ser um valor aqui dentro.\u201d<\/p>\n<p><strong>Sem estigmas<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de ofercer suporte e trabalhar na preven\u00e7\u00e3o da depress\u00e3o, as empresas precisam criar ambientes em que os funcion\u00e1rios possam falar abertamente sobre a doen\u00e7a, sem que o problema seja rotulado como \u201cfrescura\u201d. \u201cAs doen\u00e7as mentais sofrem preconceito porque n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, essas pessoas eram deixadas longe dos olhos da sociedade\u201d, diz Roberto Debski, psic\u00f3logo cl\u00ednico de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Se um profissional com depress\u00e3o encontrar esse mesmo tipo de pensamento em seu local de trabalho, provavelmente vai esconder o problema de gestores e colegas, agravando o quadro. Isso pode desencadear uma s\u00e9rie de outras enfermidades, como doen\u00e7as cardiovasculares, autoimunes e g\u00e1stricas.<\/p>\n<p>A Sprinklr, empresa de softwares de gest\u00e3o de m\u00eddias sociais, de S\u00e3o Paulo, d\u00e1 um bom exemplo de como lidar com o problema. Ali, o tema sa\u00fade mental \u00e9 t\u00e3o natural que um subs\u00eddio \u00e0 terapia faz parte do pacote de benef\u00edcios dos 150 funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, a organiza\u00e7\u00e3o fez uma parceria com a Zenklub, plataforma de tratamento psicol\u00f3gico via videoconfer\u00eancia, e passou a custear 40% das sess\u00f5es. \u201cNo come\u00e7o, os funcion\u00e1rios estranharam, mas hoje \u00e9 t\u00e3o normal que algumas pessoas tiram um hor\u00e1rio durante o dia, avisam o chefe e fazem a sess\u00e3o no escrit\u00f3rio\u201d, diz Bruno Pereira, diretor de recursos humanos da Sprinklr.<\/p>\n<p>Encontrar um ambiente acolhedor e contar com a compreens\u00e3o dos colegas e gestores pode fazer com que, em alguns casos, o trabalho tenha um potencial terap\u00eautico e ajude na recupera\u00e7\u00e3o do quadro depressivo. \u201cA carreira exerce um papel muito importante, est\u00e1 ligada \u00e0 nossa identidade. A profiss\u00e3o significa tanto que se confunde com nossa vida. Quando fica doente e precisa deixar sua atividade, voc\u00ea perde seu papel social\u201d, diz Quirino Cordeiro, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cA pessoa se sente incapaz e n\u00e3o sabe mais quem ela \u00e9. Por isso, devemos zelar pela reinser\u00e7\u00e3o profissional ap\u00f3s uma crise depressiva.\u201d<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o da empresa em rea\u00addequar o trabalho e as metas foi fundamental para a recupera\u00e7\u00e3o do supervisor de com\u00e9rcio exterior Ri\u00adcardo Esteves, de 41 anos. Funcion\u00e1rio h\u00e1 18 anos de uma companhia de log\u00edstica, em S\u00e3o Paulo, Ricardo diz que sempre apresentou tra\u00e7os da doen\u00e7a, mas nunca havia dado muita aten\u00e7\u00e3o a isso at\u00e9 que, em 2008, um quadro s\u00e9rio de depress\u00e3o sobreveio repentinamente.<\/p>\n<p>Durante v\u00e1rios dias, n\u00e3o conseguia se levantar da cama ou se alimentar e apresentou tend\u00eancias suicidas. \u201cQueria enfiar o carro da empresa na contram\u00e3o\u201d, diz. No trabalho, a doen\u00e7a se traduziu em presente\u00edsmo. \u201cFicava o dia inteiro na mesa, sem conseguir fazer nada.\u201d Depois que come\u00e7ou o tratamento de sa\u00fade, que aliava terapia com medica\u00e7\u00e3o, Ricardo conversou com o RH, conseguiu mudar de \u00e1rea e readequou as entregas. \u201cSe a companhia compreende que precisa dar um tempo para o colaborador se cuidar, o trabalho ajuda bastante, porque te coloca em movimento. Ficar em casa sozinho s\u00f3 piora a sensa\u00e7\u00e3o de vazio\u201d, afirma Ricardo.<\/p>\n<p><strong>\u00c0 base de rem\u00e9dios<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDurante dois anos da minha vida tomava meia garrafa de u\u00edsque e dois Lexotans por dia.\u201d \u00c9 assim que o empreendedor Paulo Mauricio Mello, de 59 anos, come\u00e7a seu relato sobre a depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Com uma carreira de cinco anos na \u00e1rea de marketing em empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es e cansado do mundo corporativo, em 1987 ele abriu a pr\u00f3pria empresa. Mas, at\u00e9 em seu projeto pessoal, a press\u00e3o e as contradi\u00e7\u00f5es do ambiente corporativo persistiam. \u201cComecei a me dopar para aguentar a rotina de um trabalho no qual eu n\u00e3o acreditava. Mesmo com a empresa indo bem, rodeado de pessoas em eventos e reu\u00adni\u00f5es, eu me sentia sozinho\u201d, diz Paulo. \u201cSucumbi, parei de acreditar em ter um prop\u00f3sito e passei a buscar formas de escapar daquela frustra\u00e7\u00e3o.\u201d Depois de anos com essa combina\u00e7\u00e3o fatal, em 1998 Paulo teve um colapso neurol\u00f3gico. \u201cAl\u00e9m da depress\u00e3o, o uso excessivo de rem\u00e9dios e \u00e1lcool me levou a um es\u00adtado em que eu tremia o tempo todo.\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o con\u00adseguia mais trabalhar \u2014perdeu a empresa e passou quase 11 meses em casa, em um estado que descreve como vegetativo. \u201cOs m\u00e9dicos disseram que eu n\u00e3o teria mais uma carreira\u201d, afirma. Com ajuda de terapia, coaching, medica\u00e7\u00e3o e apoio da fam\u00edlia, Paulo aos poucos voltou a ter uma rotina normal. \u201cComecei dando pequenos passos. Primeiro ia do sof\u00e1 at\u00e9 a porta da sala. Depois, passei a descer at\u00e9 a frente do pr\u00e9dio. Uma vit\u00f3ria enorme foi quando consegui pegar o carro e levar meu filho ao col\u00e9gio.\u201d<\/p>\n<p>Como as contas estavam no vermelho, quando se sentiu melhor, Paulo teve de retornar ao mundo corpo\u00adrativo, como diretor de mar\u00adketing de uma empresa de te\u00adle\u00adco\u00admunica\u00e7\u00f5es. Mas, ap\u00f3s algum tempo, os sinais da depress\u00e3o voltaram a aparecer. Temendo que outra crise se abatesse sobre ele, em 2005 Paulo largou o cargo e passou a se dedicar \u00e0 carreira de coach, que j\u00e1 praticava informalmente.<\/p>\n<p>Profissionalizou-se e, atualmente, coordena uma consultoria que combina o aconselhamento de carreira com t\u00e9cnicas como acupuntura e medita\u00e7\u00e3o. \u201cEncontrei meu prop\u00f3sito, que \u00e9 ajudar as pessoas, e n\u00e3o tive mais crises.\u201d<\/p>\n<p>Casos como o de Paulo, de pessoas que se automedicam ou recorrem ao \u00e1lcool e outras drogas para enfrentar o dia a dia, s\u00e3o mais comuns do que se imagina e elevam o risco de doen\u00e7as mentais.<\/p>\n<p>De acordo com uma pesquisa da International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), com 1 000 profissionais de S\u00e3o Paulo e Porto Alegre, no ano passado 57% dos trabalhadores tomavam rem\u00e9dios autoprescritos e 53% consumiam bebidas alco\u00f3licas para se anestesiar do estresse do trabalho.<\/p>\n<p>A medica\u00e7\u00e3o, embora fundamental para o tratamento, precisa ter orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e ser combinada com outros m\u00e9todos, como terapia, atividades f\u00edsicas e grupos de apoio. \u201cAlguns rem\u00e9dios t\u00eam alto risco de causar depend\u00eancia. Muitos pacientes exigem respostas r\u00e1pidas dos m\u00e9dicos e querem logo uma receita, mas \u00e9 preciso entender que o tratamento \u00e9 de longo prazo\u201d, diz Daniel Elia, consultor da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade\/Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (Opas\/OMS) no Brasil.<\/p>\n<p>E, para ajudar a superar a batalha que \u00e9 o tratamento de uma doen\u00e7a mental, os especialistas s\u00e3o un\u00e2nimes em dizer que \u00e9 preciso ter acolhimento n\u00e3o s\u00f3 da fam\u00edlia mas tamb\u00e9m de chefes, colegas e empresa.<\/p>\n<p>Tratar o problema com seriedade (e humanidade) ajuda os profissionais que sofrem com o problema a n\u00e3o se sentirem estigmatizados e as companhias a diminuir os custos com sa\u00fade. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o em que todos ganham. Por isso, j\u00e1 passou da hora de a depress\u00e3o deixar de ser um tabu no local de trabalho.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/carreira\/o-seu-trabalho-te-deixa-deprimido\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">EXAME<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na manh\u00e3 do dia 24 de mar\u00e7o de 2015, um\u00a0Airbus\u00a0A320 da companhia a\u00e9rea Germanwings, controlada pela Lufthansa, caiu na regi\u00e3o dos Alpes. Os detalhes descobertos nos dias subsequentes chocaram o mundo. De acordo com o \u00e1udio da caixa-preta do avi\u00e3o, o copiloto, Andreas Lubitz, de 28 anos, havia deliberadamente derrubado o voo 4U9525. 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