{"id":3477,"date":"2014-03-27T18:07:55","date_gmt":"2014-03-27T21:07:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/?p=3477"},"modified":"2016-11-03T16:21:45","modified_gmt":"2016-11-03T19:21:45","slug":"profissoes-condenadas-a-sumir-e-as-que-irao-resistir-as-novas-tecnologias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/carreira\/profissoes-condenadas-a-sumir-e-as-que-irao-resistir-as-novas-tecnologias\/","title":{"rendered":"Profiss\u00f5es condenadas a sumir e as que resistir\u00e3o \u00e0s novas tecnologias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Seu trabalho tem futuro? Ap\u00f3s substituir o trabalho bra\u00e7al, na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, as m\u00e1quinas come\u00e7am a substituir o trabalho intelectual nos escrit\u00f3rios<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O russo Gary Kasparov n\u00e3o foi apenas o maior jogador de xadrez de seu tempo. Quando aceitou jogar contra o supercomputador Deep Blue, em 1997, era considerado o maior enxadrista de todos os tempos. \u201cN\u00e3o acho apropriado discutir o que eu faria em caso de derrota\u201d, disse, antes do duelo. \u201cNunca perdi.\u201d Em outra ocasi\u00e3o, foi ainda mais confiante: \u201cNunca vou perder para uma m\u00e1quina\u201d. Depois de oito dias e seis partidas, o que parecia improv\u00e1vel aconteceu. A m\u00e1quina venceu o homem num duelo de capacidade intelectual. A vida profissional de Kasparov foi diretamente afetada a partir daquele dia 11 de maio. A vida dos demais profissionais, n\u00e3o. Supercomputadores eram para poucos. O Deep Blue pesava 1,4 tonelada, s\u00f3 sabia jogar xadrez e custou, em valores atuais, o equivalente a US$ 15 milh\u00f5es. Computadores j\u00e1 haviam chegado a f\u00e1bricas e escrit\u00f3rios, mas com capacidade e resultados t\u00edmidos. Ainda prevalecia a frase cunhada em 1987 por Robert Solow, ganhador do Pr\u00eamio Nobel de Economia por seus estudos sobre crescimento: \u201cD\u00e1 para ver a era dos computadores em todo lugar, menos nas estat\u00edsticas de produtividade\u201d. Hoje, 16 anos ap\u00f3s a derrota de Kasparov, o cen\u00e1rio mudou. O poder de processamento de um supercomputador dos anos 1990 est\u00e1 agora dispon\u00edvel em computadores pequenos, baratos, vers\u00e1teis e interconectados, como os smartphones. Incrivelmente capazes de armazenar e interpretar informa\u00e7\u00f5es, essas novas m\u00e1quinas est\u00e3o revolucionando o ambiente de trabalho \u2013 e isso afeta diretamente seu emprego. \u201cCerca de 47% das profiss\u00f5es correm risco\u201d, disse a \u00c9POCA Carl Frey, doutor em economia da Universidade de Oxford, autor do estudo O futuro do emprego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frey e Michael Osborne, professor de ci\u00eancia de engenharia de Oxford, avaliaram tarefas cotidianas de mais de 700 ocupa\u00e7\u00f5es, para identificar o que uma m\u00e1quina poder\u00e1 fazer melhor que os humanos nas pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas. Chegaram a um \u00edndice que varia entre 0 (nenhum risco de substitui\u00e7\u00e3o) e 100% (risco total). As profiss\u00f5es mais amea\u00e7adas est\u00e3o nas \u00e1reas de log\u00edstica, escrit\u00f3rio e produ\u00e7\u00e3o, aquelas que envolvem tarefas intelectualmente repetitivas. Embora o estudo seja baseado no mercado de trabalho dos Estados Unidos, suas conclus\u00f5es s\u00e3o aplic\u00e1veis mundialmente. \u201cTrocar profissionais por m\u00e1quinas no Brasil \u00e9, em tese, menos atraente do que nos Estados Unidos, porque os sal\u00e1rios s\u00e3o mais baixos\u201d, diz Frey. \u201cMas o custo da automa\u00e7\u00e3o est\u00e1 caindo t\u00e3o rapidamente que a tend\u00eancia dever\u00e1 se manifestar nos dois pa\u00edses quase ao mesmo tempo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exerc\u00edcios de futurologia sobre a evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia existem h\u00e1 d\u00e9cadas \u2013 e, h\u00e1 d\u00e9cadas, eles costumam errar o alvo. Historicamente, os profetas pecam pelo otimismo. Agora, a realidade parece ter chegado antes do previsto. Em 2004, os economistas Frank Levy, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Richard Murnane, da Universidade Harvard, disseram no livro A nova divis\u00e3o do trabalho que os rob\u00f4s continuariam incapazes de realizar tarefas complexas, como dirigir. A previs\u00e3o dos dois especialistas foi superada em 2005, quando Stanley, um carro sem motorista da Universidade Stanford, venceu um desafio proposto pela Ag\u00eancia de Projetos Avan\u00e7ados de Defesa dos Estados Unidos (Darpa). Desde 2009, o Google desenvolve a tecnologia do Stanley em estradas abertas ao tr\u00e2nsito. Os rob\u00f4s j\u00e1 rodaram mais de 500.000 quil\u00f4metros, sem acidentes. O custo do sistema de radares a laser, usado pelos carros, caiu de US$ 35 milh\u00f5es para US$ 80 mil. Considerados, no livro de 2004, insubstitu\u00edveis em longo prazo, motoristas de \u00f4nibus escolares t\u00eam 89% de chance de ser substitu\u00eddos por uma m\u00e1quina, segundo a previs\u00e3o atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um trabalhador com alto risco de substitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o perder\u00e1, necessariamente, o emprego. Mas seu horizonte profissional ser\u00e1 limitado. O sal\u00e1rio tender\u00e1 a subir menos, pressionado pela possibilidade de substitui\u00e7\u00e3o por m\u00e1quinas ou por colegas de profiss\u00e3o rec\u00e9m-de\u00adsempregados. \u201cAcabou-se o tempo em que um profissional ficava de 20 a 30 anos na mesma carreira\u201d, diz Frey. \u201cComo muitas mudan\u00e7as acontecem mais r\u00e1pido, os trabalhadores precisam se adaptar mais rapidamente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A substitui\u00e7\u00e3o do trabalho humano por ferramentas fez a humanidade evoluir desde a Idade da Pedra. Vista de perto, por\u00e9m, a evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica n\u00e3o ocorre de maneira harm\u00f4nica e sincronizada. Vem acompanhada de crises, num ciclo que o economista austr\u00edaco\u00a0 Joseph Schumpeter (1883-1950) batizou como \u201cdestrui\u00e7\u00e3o criadora\u201d. \u201cA estrutura econ\u00f4mica \u00e9 incessantemente transformada de dentro para fora, incessantemente destruindo a anterior e incessantemente criando outra nova\u201d, afirma no livro Capitalismo, socialismo e democracia. \u201cEsse processo de destrui\u00e7\u00e3o criadora \u00e9 o elemento essencial do capitalismo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande salto e a grande crise ocorreram com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. O trabalho repetitivo de artes\u00e3os foi substitu\u00eddo por m\u00e1quinas, operadas por profissionais mais baratos e de menor qualifica\u00e7\u00e3o. A mudan\u00e7a encontrou resist\u00eancia de muitos \u2013 pois nunca se sabem, de antem\u00e3o, os vencedores e perdedores de uma revolu\u00e7\u00e3o. At\u00e9 a rainha Elizabeth I, da Inglaterra, resistiu. Em 1589, recusou-se a patentear a m\u00e1quina de tecer criada pelo inventor William Lee. \u201cImagine o que sua inven\u00e7\u00e3o poderia fazer a meus pobres cidad\u00e3os\u201d, disse. \u201cSua m\u00e1quina certamente os levar\u00e1 \u00e0 ru\u00edna, ao tirar o emprego, tornando-os mendigos.\u201d A tentativa mais inflamada de conter a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica foi liderada pelo ingl\u00eas Ned Ludd, entre 1811 e 1817. Os \u201cluditas\u201d invadiram tecelagens e quebraram m\u00e1quinas. Em v\u00e3o. No longo prazo, a sociedade saiu ganhando. A manufatura tornou os produtos acess\u00edveis a um p\u00fablico maior, porque ficaram mais baratos e porque a profiss\u00e3o de oper\u00e1rio incluiu no mercado mais consumidores. O aumento nas vendas criou demanda por atividades relacionadas, como produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima e manuten\u00e7\u00e3o das linhas de produ\u00e7\u00e3o, e indiretamente relacionadas, como transporte e alimenta\u00e7\u00e3o. Fez a economia girar. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial melhorou as condi\u00e7\u00f5es de vida de tal forma que, entre os anos 1700 e 1900, a popula\u00e7\u00e3o mundial cresceu de 680 mil habitantes para 1,6 bilh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A automa\u00e7\u00e3o do trabalho intelectual ser\u00e1 um salto compar\u00e1vel ao da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, afirmam Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, professores do MIT, no livro The second machine age (A segunda era da m\u00e1quina). Os autores afirmam que a segunda revolu\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas, a exemplo da primeira, trar\u00e1 possibilidades fant\u00e1sticas de melhora na qualidade de vida \u2013 ao lado de incertezas, desemprego e, possivelmente, concentra\u00e7\u00e3o de renda. O avan\u00e7o da computa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, j\u00e1 foi acompanhado de aumento na desigualdade social. Os dados mais recentes do Departamento de Receita americano mostram que a camada 1% mais rica da popula\u00e7\u00e3o acumulou 19,3% da renda do pa\u00eds em 2012 \u2013 um recorde, num s\u00e9culo de levantamento. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego no mundo crescer\u00e1 6,4% de 2013 a 2018, apesar da perspectiva de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica nos pa\u00edses ricos. Historicamente, o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico fechou portas e abriu um n\u00famero ainda maior de janelas. Num momento de transi\u00e7\u00e3o, como agora, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil identificar onde as janelas se abrem. Mas algumas parecem bastante claras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O LinkedIn, rede de contatos profissionais com cerca de 260 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, pesquisou as dez profiss\u00f5es que mais cresceram desde 2008. Oito envolvem programa\u00e7\u00e3o de sistemas e formas criativas de aproveitar a torrente de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edvel. As outras duas s\u00e3o instrutor de zumba (uma dan\u00e7a) e personal trainer. A lista \u00e9 coerente com as caracter\u00edsticas humanas que, segundo Frey e Osborne, as m\u00e1quinas s\u00e3o menos capazes de superar: percep\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia social e criatividade. Quanto mais uma profiss\u00e3o requerer essas tr\u00eas caracter\u00edsticas, menos exposta estar\u00e1 \u00e0 automa\u00e7\u00e3o \u2013 e menos sujeita a um poss\u00edvel esvaziamento de perspectivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Percep\u00e7\u00e3o e Manipula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPercep\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o\u201d podem ser entendidas como versatilidade e habilidade f\u00edsica. Rob\u00f4s executam com for\u00e7a, rapidez e precis\u00e3o movimentos repetitivos, imposs\u00edveis ao homem. Mas as m\u00e1quinas se adaptam mal a ambientes sujeitos a mudan\u00e7as. A dificuldade de adapta\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas ficou conhecida como paradoxo de Moravec \u2013 em refer\u00eancia a Hans Moravec, pesquisador de rob\u00f3tica da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos. \u201c\u00c9 comparativamente f\u00e1cil fazer computadores exibir desempenho de um adulto em testes de intelig\u00eancia ou jogos de xadrez \u2013 e dif\u00edcil ou imposs\u00edvel dar \u00e0s m\u00e1quinas as habilidades de um beb\u00ea de 1 ano, em quest\u00f5es como percep\u00e7\u00e3o e mobilidade\u201d, dizia ele. O alto custo de superar o paradoxo permite vislumbrar longa vida para profiss\u00f5es que exigem precis\u00e3o e maleabilidade, como dentistas, cirurgi\u00f5es, arque\u00f3logos ou jardineiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Intelig\u00eancia Social<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIntelig\u00eancia social\u201d pode ser entendida como diplomacia, habilidade pol\u00edtica, sensibilidade, capacidade de formar la\u00e7os de confian\u00e7a, empatia.\u00a0 \u00c9 um tru\u00eds\u00admo, de t\u00e3o verdadeiro: ningu\u00e9m tem tanto calor humano quanto os humanos. O futuro est\u00e1 garantido para coordenadores de equipes como promotores de eventos, gerentes de hospedagem ou gestores de emerg\u00eancias. Terapeutas e psic\u00f3logos, mais ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Criatividade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A criatividade sobreviver\u00e1 ao avan\u00e7o das m\u00e1quinas em carreiras art\u00edsticas, como design de moda. \u201cUm computador pode criar varia\u00e7\u00f5es do que faz sucesso, mas \u00e9 incapaz de lan\u00e7ar tend\u00eancias\u201d, diz Frey. \u201cA moda \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o humana.\u201d A maior oportunidade do s\u00e9culo est\u00e1 na simbiose entre a criatividade humana e o poder de computa\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas. Servi\u00e7os como Amazon e Google s\u00e3o o melhor exemplo desse casamento feliz. H\u00e1 duas d\u00e9cadas, seus fundadores eram jovens de classe m\u00e9dia, formados em ci\u00eancias exatas nas melhores universidades americanas. Hoje, Larry Page e Sergey Brin (fundadores do Google) e Jeff Bezos (fundador da Amazon) s\u00e3o os mais jovens integrantes da lista de 20 homens mais ricos do mundo. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, est\u00e1 no caminho. Aos 29 anos, \u00e9 o 66o mais rico. A tecnologia atual permite a qualquer jovem lan\u00e7ar um produto de sucesso mundial. Basta ter uma boa ideia, de prefer\u00eancia uma que d\u00ea sentido \u00e0 avalanche de dados digitais armazenados pelas m\u00e1quinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida e a obra de Bezos, Page, Brin e Zuckerberg podem inspirar a forma\u00e7\u00e3o escolar de jovens e crian\u00e7as. Decorar nomes e f\u00f3rmulas n\u00e3o faz mais sentido. As respostas prontas est\u00e3o na internet. \u201cOs alunos deveriam aprender programa\u00e7\u00e3o, para domar as m\u00e1quinas\u201d, diz Frey. \u201cE empreendedorismo, para identificar problemas e aplicar solu\u00e7\u00f5es.\u201d Em outras palavras, os trabalhadores do futuro devem exercitar a parceria com as m\u00e1quinas, em vez de enfrent\u00e1-las. Foi o que um dia aprendeu Gary Kasparov. Depois de perder para o Deep Blue, ele se encantou com os resultados de um torneio de xadrez do tipo \u201cvale-tudo\u201d, em que foram aceitos m\u00e1quinas, homens e parcerias de homens e m\u00e1quinas. \u201cO vencedor n\u00e3o foi um mestre do xadrez ou um supercomputador, mas uma dupla de enxadristas amadores, ajudados por tr\u00eas computadores comuns\u201d, diz. A orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do homem, combinada \u00e0 acuidade do computador, pode trazer resultados extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p><b>Fonte: \u00c9poca<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seu trabalho tem futuro? Ap\u00f3s substituir o trabalho bra\u00e7al, na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, as m\u00e1quinas come\u00e7am a substituir o trabalho intelectual nos escrit\u00f3rios O russo Gary Kasparov n\u00e3o foi apenas o maior jogador de xadrez de seu tempo. 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