{"id":36122,"date":"2021-06-21T17:45:58","date_gmt":"2021-06-21T20:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/?p=36122"},"modified":"2021-06-21T17:45:58","modified_gmt":"2021-06-21T20:45:58","slug":"ensino-remoto-faz-quase-3-milhoes-de-alunos-perderem-merenda-aponta-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/noticias\/ensino-remoto-faz-quase-3-milhoes-de-alunos-perderem-merenda-aponta-estudo\/","title":{"rendered":"Ensino remoto faz quase 3 milh\u00f5es de alunos perderem merenda, aponta estudo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\" id=\"noticia-olho\">&#8220;Vivo da ajuda dos outros&#8221;, conta Ana Paula Rodrigues dos Santos, m\u00e3e de alunos da rede p\u00fablica de S\u00e3o Pedro da Aldeia, no Rio<\/h4>\n\n\n\n<p>Mais de um ano ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o do&nbsp;<strong>ensino remoto<\/strong>&nbsp;, ainda h\u00e1 pelo menos&nbsp;<strong>677 redes municipais de educa\u00e7\u00e3o<\/strong>&nbsp;que n\u00e3o garantem a alimenta\u00e7\u00e3o escolar de seus estudantes. Isso significa que seus&nbsp;<strong>2,7 milh\u00f5es<\/strong>&nbsp;<strong>de alunos<\/strong>&nbsp;perderam as refei\u00e7\u00f5es que faziam na escola e n\u00e3o est\u00e3o recebendo esses mantimentos em casa. Os dados s\u00e3o do&nbsp;<strong>Painel de Monitoramento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica no Contexto da Pandemia<\/strong>&nbsp;, da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) com apoio do&nbsp;<strong>MEC<\/strong>&nbsp;.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de merenda comp\u00f5e um quadro em que mais da metade dos domic\u00edlios no pa\u00eds (59,4%) apresentaram algum grau de inseguran\u00e7a alimentar entre agosto e dezembro de 2020, segundo pesquisa coordenada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justi\u00e7a da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Universidade de Bras\u00edlia (UnB). Na pr\u00e1tica, 125,6 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o se alimentaram como deveriam ou j\u00e1 conviviam com a incerteza quanto ao acesso \u00e0 comida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vivo da ajuda dos outros&#8221;, conta Ana Paula Rodrigues dos Santos, de 35 anos, moradora de S\u00e3o Pedro da Aldeia, na Regi\u00e3o dos Lagos do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e de seis filhos, Ana Paula conhece bem a alegria de alimentar crian\u00e7as. Ela era merendeira, mas agora, desempregada, n\u00e3o consegue garantir as refei\u00e7\u00f5es de seus filhos com os R$ 447 de Bolsa Fam\u00edlia, \u00fanica renda da fam\u00edlia:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tenho quatro crian\u00e7as nas escolas de S\u00e3o Pedro, mas a cidade n\u00e3o d\u00e1 nada. Estou precisando muito. Eles tomavam caf\u00e9 e almo\u00e7avam na escola.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Vizinha \u00e0 Ana Paula, Andrea Pinheiro, de 50 anos, tem um filho na rede municipal e vive de uma pens\u00e3o de R$ 1.100 para ela e o marido, desempregado, e tamb\u00e9m passa apertos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o posso dizer que sempre tem comida. Quando falta, os vizinhos ajudam&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa comandada pela UFG buscou todas as 5.569 redes municipais de educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e recebeu informa\u00e7\u00f5es de 1.506, que respondem por 40,5% (9,2 milh\u00f5es) das matr\u00edculas no pa\u00eds. Dessas, 829 cidades, com 6,5 milh\u00f5es de alunos, oferecem alimenta\u00e7\u00e3o escolar e 677, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em 2020, ningu\u00e9m sabia o que fazer. Mas j\u00e1 passou mais de um ano. N\u00e3o d\u00e1 para aceitar que as redes n\u00e3o tenham criado estrat\u00e9gias de atendimento&#8221;, afirma Marcelo Colonato, presidente do F\u00f3rum Nacional de Conselhos de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (CAE) e do Conselho Estadual de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Valores baixos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O custo da merenda das escolas p\u00fablicas \u00e9 dividido entre o governo federal e o estado nas escolas estaduais ou entre Bras\u00edlia o munic\u00edpio nas escolas municipais. As redes j\u00e1 foram autorizadas \u2014 mas n\u00e3o obrigadas \u2014 a garantir, com esses recursos, a alimenta\u00e7\u00e3o dos estudantes enquanto est\u00e3o no ensino remoto, o que torna o valor um pouco mais alto do que a prepara\u00e7\u00e3o nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando n\u00e3o fazem, esse dinheiro da Uni\u00e3o fica sendo acumulado nas contas dos estados e munic\u00edpios e eles s\u00f3 podem us\u00e1-lo para a compra de produtos aliment\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Sandra Helena Pedroso, presidente do Conselho de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar do estado do Rio, o baixo repasse da Uni\u00e3o, que \u00e9 definido por lei como gasto obrigat\u00f3rio e n\u00e3o \u00e9 reajustado desde 2017, \u00e9 um dos problemas que dificultam cidades mais pobres a garantir a merenda das crian\u00e7as durante a pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a Uni\u00e3o aporta de R$ 0,36 (para matr\u00edculas de hor\u00e1rio parcial) a R$ 1,07 (hor\u00e1rio integral) por aluno. Na rede estadual do Rio, a secretaria de educa\u00e7\u00e3o complementa com mais R$ 0,68 e R$ 1,97, respectivamente. Com isso, cada refei\u00e7\u00e3o custa R$ 1,04 e R$ 3,04 aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Durante o ensino presencial, a conta fechava porque a maior parte dos alunos n\u00e3o se alimentam na escola, por vergonha ou por preferir outros alimentos. O governo federal e o Congresso precisam rever esses valores ou autorizar o uso de recursos do Sal\u00e1rio Educa\u00e7\u00e3o ou do Fundeb para isso&#8221;, defende Pedroso.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, os alunos sofrem com a falta de merenda durante o ensino remoto. De acordo com conselheiros do CAE, a cidade de Ourinhos (SP), por exemplo, distribuiu apenas um kit em 2021 e mais nada. Em Rio Negrinho (SC), come\u00e7ou apenas nesta semana um levantamento para iniciar s\u00f3 agora as entregas. Em Varre-Sai (RJ), foram entregues kits mensais de maio a dezembro de 2020. Em 2021, foi dado apenas um, em maio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando h\u00e1 fome infantil, a gente j\u00e1 passou pela fome familiar. Em especial, a fome feminina, da m\u00e3e que deixa de comer para dar para seu filho&#8221;, diz Guilherme Pimentel, ouvidor geral da Defensoria P\u00fablica do Rio, que busca na Justi\u00e7a obrigar os munic\u00edpios a garantir a merenda.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, mesmo cidades que oferecem o benef\u00edcio apresentam problemas. Na Baixada Fluminense, a cidade de Nova Igua\u00e7u, por exemplo, diminuiu o valor de R$ 110 para R$ 70 mensais em 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Com R$ 70 s\u00f3 d\u00e1 para comprar um arroz, um feij\u00e3o e um \u00f3leo. Quem est\u00e1 me ajudando mesmo \u00e9 o projeto Faixa Preta. Sem ele, n\u00e3o sei o que seria de mim e meus seis filhos&#8221;, relata Luana Selga, de 40 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Faixa Preta de Jesus, que ajuda Luana, \u00e9 um projeto social da cidade que ensinava artes marciais para crian\u00e7as da regi\u00e3o, al\u00e9m de garantir alimenta\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o escolar. Na pandemia, interrompeu as aulas presenciais e virou uma esp\u00e9cie de centro de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, chegando a outras cidades inclusive comunidades do Rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Atendo 600 pessoas diretamente. Fizemos uma conex\u00e3o com projetos pequenos e empresas, que doam alimentos. Nesse um ano e meio de pandemia, j\u00e1 entregamos 180 toneladas de alimentos: biscoito, macarr\u00e3o, fruta, legume, de tudo&#8221;, diz Ricardo Cavalcanti, diretor da ONG.<\/p>\n\n\n\n<p>Ja em S\u00e3o Gon\u00e7alo, Regi\u00e3o Metropolitana do Rio, a prefeitura organizou um modelo de cart\u00e3o alimenta\u00e7\u00e3o para distribuir para as fam\u00edlias. Por\u00e9m, segundo o vereador Rom\u00e1rio Regis (PCdoB), houve falhas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Fam\u00edlias ficaram sem receber os cart\u00f5es e mesmo algumas que receberam ficaram sem o dep\u00f3sito&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>No cart\u00e3o de Marisa Gabri da Silva Rodrigues, de 28 anos, s\u00f3 chegou uma recarga, em mar\u00e7o, de R$ 54. Ela ainda aguarda os valores de abril, maio e junho. Costureira aut\u00f4noma e m\u00e3e de tr\u00eas crian\u00e7as, a jovem viu a empregadora pegar Covid-19, o que paralisou a produ\u00e7\u00e3o na f\u00e1brica e a deixou praticamente sem renda.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu aluguel venceu e as poucas compras que eu tenho j\u00e1 est\u00e3o no fim. Estou procurando outra f\u00e1brica pra ver se consigo levantar algum dinheiro para sustentar minhas filhas. S\u00f3 tenho R$ 300 da pens\u00e3o das meninas&#8221;, afirma a costureira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gasto aumenta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ex-conselheiro do Centro de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar de S\u00e3o Gon\u00e7alo, Cl\u00e1udio Alberto Oliveira conta que diariamente recebe den\u00fancias de pais que est\u00e3o passando dificuldades por n\u00e3o terem acesso ao cart\u00e3o alimenta\u00e7\u00e3o e de estudantes que nem chegaram a receber o benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estamos numa situa\u00e7\u00e3o complicada, com pais que v\u00e3o \u00e0 escola ver por que o dinheiro n\u00e3o cai e n\u00e3o t\u00eam resposta. A prefeitura disse que seria distribu\u00eddo um kit alimenta\u00e7\u00e3o, mas at\u00e9 agora n\u00e3o deu um parecer. Al\u00e9m do grande problema dos que nem sequer receberam o cart\u00e3o e n\u00e3o conseguem solicitar&#8221;, explica Cl\u00e1udio.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e de um menino de 5 anos, Geane Rangel, de 35, tem gastado cerca de R$ 500 com a alimenta\u00e7\u00e3o do filho, quase R$ 200 a mais do que quando a crian\u00e7a ficava em tempo integral na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Faz falta porque, com o dinheiro, eu comprava leite, biscoito, iogurte. Era um al\u00edvio para a gente que est\u00e1 desempregado. Mas resolveram n\u00e3o depositar mais. E o pior \u00e9 que ningu\u00e9m tem resposta para nada. O que a diretora diz \u00e9 que agora a prefeitura n\u00e3o vai mais recarregar o cart\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em nota, a Secretaria municipal de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Gon\u00e7alo disse que \u201cvai entregar kits alimenta\u00e7\u00e3o para os alunos, relativos aos meses de abril, maio e junho, t\u00e3o logo seja conclu\u00eddo o processo licitat\u00f3rio para a aquisi\u00e7\u00e3o dos alimentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/economia.ig.com.br\/2021-06-21\/merenda-ensino-remoto-fome-levantamento.html\">https:\/\/economia.ig.com.br\/2021-06-21\/merenda-ensino-remoto-fome-levantamento.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Vivo da ajuda dos outros&#8221;, conta Ana Paula Rodrigues dos Santos, m\u00e3e de alunos da rede p\u00fablica de S\u00e3o Pedro da Aldeia, no Rio Mais de um ano ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o do&nbsp;ensino remoto&nbsp;, ainda h\u00e1 pelo menos&nbsp;677 redes municipais de educa\u00e7\u00e3o&nbsp;que n\u00e3o garantem a alimenta\u00e7\u00e3o escolar de seus estudantes. 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