{"id":6873,"date":"2015-09-16T08:00:34","date_gmt":"2015-09-16T11:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/?p=6873"},"modified":"2016-10-26T17:04:12","modified_gmt":"2016-10-26T20:04:12","slug":"max-gehringer-a-ambicao-nao-prejudica-a-pressa-sim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.curriculum.com.br\/blog\/carreira\/max-gehringer-a-ambicao-nao-prejudica-a-pressa-sim\/","title":{"rendered":"Max Gehringer: &#8220;a ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o prejudica, a pressa sim&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Especialista em carreira e gest\u00e3o empresarial, Gehringer comenta sobre seu novo livro, diz que a atual crise pode oferecer oportunidades profissionais e pede paci\u00eancia aos jovens que est\u00e3o entrando no mercado de trabalho.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s comandar grandes empresas e participar ativamente das transforma\u00e7\u00f5es pelas quais o mundo corporativo vivenciou no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas, Max Gehringer tem um conselho muito claro para os jovens: paci\u00eancia. &#8220;Hoje, parece que as pessoas se formam e j\u00e1 entram em uma empresa esperando a primeira promo\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma certa impaci\u00eancia para que as coisas aconte\u00e7am&#8221;, diz o administrador e autor de diversos livros sobre carreiras e gest\u00e3o empresarial. Para Gehringer, o &#8220;jovem tem todo direito de ser ambicioso&#8221;, mas h\u00e1 uma certa pressa para viver o crescimento profissional \u2014 e essa pressa, segundo ele, s\u00f3 prejudica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com uma vis\u00e3o mais tradicional do mundo corporativo \u2014 dessas que n\u00e3o se adapta ou modela \u00e0 qualquer startup que hoje vemos por a\u00ed \u2014, Gehringer aconselha que o jeito mais seguro para evitar uma demiss\u00e3o \u00e9 simplesmente preparando-se muito para isso. Na pr\u00e1tica, significa fazer diversos cursos complementares a seu emprego, n\u00e3o parar de estudar e se provar muito esfor\u00e7ado. &#8220;Desse modo, dificilmente voc\u00ea vai ser dispensado. Mas se for, ser\u00e1 a pessoa mais bem preparada para arrumar um emprego&#8221;, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Gehringer sabe o que est\u00e1 falando. Sua carreira come\u00e7ou em uma antiga f\u00e1brica da Cica, localizada em Jundia\u00ed (SP), quando trabalhou como office-boy. Naquele tempo, conseguiu formar-se em administra\u00e7\u00e3o de empresas e construiu uma trajet\u00f3ria de sucesso que o tornou um dos executivos mais cobi\u00e7ados do Brasil nos anos 1990. Presidiu a Pepsi-Cola Engarrafadora e a Pullman, al\u00e9m de ter dirigido a Elma Chips e a PepsiCo Foods nos EUA. Na virada dos anos 2000, deixou a lideran\u00e7a no mundo corporativo para aconselhar milhares de brasileiros sobre como ser um funcion\u00e1rio melhor, obter um aumento ou lidar com os seus chefes ou subordinados. Nos \u00faltimos quinze anos, palestrou para mais de mil empresas e tornou-se um dos mais populares comentaristas de carreira, ao entrar para o time da CBN e ganhar um quadro no Fant\u00e1stico. Colunista de v\u00e1rias revistas, Gehringer tamb\u00e9m escreveu diversos livros, entre os mais famosos, &#8220;Aprenda a Ser Chefe&#8221; e &#8220;Com\u00e9dia Corporativa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Neste m\u00eas, \u00e9 a vez de lan\u00e7ar &#8220;Todas as Respostas &#8211; O que a B\u00edblia ensina sobre Carreira e Empregos&#8221; (Editora Benvir\u00e1, grupo Saraiva), um livro que promete conselhos profissionais utilizando somente trechos b\u00edblicos. Fruto de 13 anos de trabalho, Gehringer afirma ter escrito a obra sem pressa, esperando encontrar os trechos b\u00edblicos precisos para 366 d\u00favidas de ouvintes que recebia por meio do r\u00e1dio. H\u00e1 inspira\u00e7\u00f5es para temas como inveja, acomoda\u00e7\u00e3o, camaradagem, desobedi\u00eancia, castigo e aumento. Em entrevista, ele comenta alguns desses t\u00f3picos, o relacionamento dos chefes com a gera\u00e7\u00e3o Y e como se preparar profissional e pessoalmente para enfrentar um mercado em crise:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Em &#8220;Todas as Respostas&#8221;, voc\u00ea aborda t\u00f3picos que v\u00e3o desde a inveja at\u00e9 assuntos mais contempor\u00e2neos, como a acomoda\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e a rela\u00e7\u00e3o com o chefe. Quais quest\u00f5es o senhor considera como os maiores desafios e problemas que profissionais enfrentam hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pouqu\u00edssimas coisas que existem hoje e que fazem parte do nosso dia a dia existiam quando os livros b\u00edblicos foram escritos. O que permaneceu da mensagem b\u00e1sica da B\u00edblia \u00e9 o &#8220;n\u00e3o fa\u00e7a com o outro o que voc\u00ea n\u00e3o quer que fa\u00e7am com voc\u00ea&#8221;, que serve para o chefe, por exemplo. N\u00e3o trate seus funcion\u00e1rios da maneira como n\u00e3o gostaria de ser tratado pelo seu chefe e respeite a pessoa que est\u00e1 do seu lado \u2014 voc\u00ea n\u00e3o sabe de quem vai precisar um dia. S\u00e3o li\u00e7\u00f5es milenares, que se repetem e s\u00e3o aplic\u00e1veis no dia de hoje. Mas levei em conta que a grande maioria das mensagens que recebo envolve relacionamento: &#8220;algu\u00e9m n\u00e3o gosta de mim&#8221;, &#8220;algu\u00e9m tem inveja de mim&#8221;, &#8220;algu\u00e9m quer puxar meu tapete&#8221;,&#8221; algu\u00e9m quer furar meu olho&#8221;, &#8220;eu n\u00e3o tenho sorte na vida&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>S\u00e3o problema de relacionamento, ent\u00e3o, que mais afetam os brasileiros nas empresas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Tenho impress\u00e3o de que at\u00e9 historicamente o brasileiro, de modo geral, sempre gostaria que algu\u00e9m fizesse alguma coisa por ele. Ele est\u00e1 sempre esperando que algu\u00e9m fa\u00e7a. Como povo, n\u00f3s somos muito mais reativos do que proativos. \u00c9 aquela coisa de pensar que o governo n\u00e3o est\u00e1 fazendo algo por mim, os pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e3o, a minha empresa n\u00e3o est\u00e1. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 aquela proatividade de dizer &#8220;bom, se alguem n\u00e3o est\u00e1 fazendo nada por mim, eu vou fazer algo por mim para resolver a situa\u00e7\u00e3o&#8221;. Parece que somos mais de reclamar e esperar do que partir para alguma decis\u00e3o que vai mudar radicalmente a nossa vida. Quando as pessoas me escrevem t\u00eam muito do componente &#8220;acho que algu\u00e9m deveria estar fazendo algo por mim e n\u00e3o est\u00e1&#8221;. E sempre que respondo, procuro sugerir que a pessoa tente ela mesma fazer alguma coisa \u2014 independentemente da situa\u00e7\u00e3o que a levou a reclamar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Em um dos t\u00f3picos do livro, o senhor fala sobre quando o chefe pede ideias, mas n\u00e3o acata nenhuma das sugest\u00f5es. E a li\u00e7\u00e3o que traz \u00e9 &#8220;continue sugerindo, voc\u00ea est\u00e1 bem, porque est\u00e1 fazendo sua parte&#8221;. Essa \u00e9 uma reclama\u00e7\u00e3o constante das pessoas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">H\u00e1 muito disso sim. Principalmente de pessoas que escrevem para dizer que n\u00e3o querem dar ideias por medo que sejam roubadas. Ou que oferecem muitas sugest\u00f5es e as sugest\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o aceitas. \u00c9 que cada caso \u00e9 bem diferente do outro. \u00c0s vezes, duas pessoas que escrevem coisas muito parecidas, podem estar vivendo situa\u00e7\u00f5es diferentes. Mas acho que dar sugest\u00f5es \u00e9 sempre algo positivo e tamb\u00e9m sugest\u00f5es fora da \u00e1rea que atuamos. Se voc\u00ea j\u00e1 passou por alguma empresa que tem uma caixa de sugest\u00f5es, sabe que \u00e9 divertido de ver a pessoa da contabilidade sugerindo ideias para a \u00e1rea de vendas. O problema \u00e9 que quando estamos em uma empresa, o que esperamos \u00e9 que quem est\u00e1 fazendo a mesma coisa oito horas por dia a vida inteira enxergue o que est\u00e1 fazendo e ofere\u00e7a uma melhora \u2014 mas n\u00e3o uma melhora naquilo que os outros est\u00e3o fazendo. Esta \u00e9 uma reclama\u00e7\u00e3o comum: de gente falando do trabalho dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E existe muita gente hoje confusa no mercado, porque um fator que era um tremendo diferencial at\u00e9 a d\u00e9cada de 1990 era o fato de que pouca gente tinha curso superior no Brasil. Mas hoje praticamente todo mundo tem. N\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil ter um curso superior. Mas ainda h\u00e1 aquele vest\u00edgio do passado de que se a pessoa tivesse um curso superior j\u00e1 teria um futuro garantido. Muitas m\u00e3es disseram isso para filhos quando eles partiram para curso superior e hoje percebemos que o maior \u00edndice de desemprego no mercado de trabalho \u00e9 o de jovens, de 18 a 25 anos, que possuem curso superior.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Quais as consequ\u00eancias desse pensamento na carreira dos jovens?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 logico que quem se forma e vai para o mercado n\u00e3o encontra a facilidade que talvez esperasse encontrar e fica extremamente confuso. Aceita um trabalho que \u00e9 inferior ao estudo que tem e, portanto, \u00e0 capacidade que pensava ter. Outro fator que eu vejo muito \u00e9 uma certa impaci\u00eancia: qualquer coisa ou problema que acontece as pessoas j\u00e1 pensam que devem pedir as contas. Raramente pedir \u00e9 a melhor solu\u00e7\u00e3o. Pedir as contas \u00e9 algo que se de que fazer l\u00e1 na frente. Biblicamente, somos ensinados a ter paci\u00eancia, a suportar certas situa\u00e7\u00f5es, a tentar entender porque as coisas s\u00e3o como s\u00e3o e n\u00e3o achar que tudo est\u00e1 contra n\u00f3s, n\u00e3o pensar que h\u00e1 uma conspira\u00e7\u00e3o mundial focada em nos prejudicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Podemos dizer que hoje vemos um movimento espec\u00edfico desses jovens: muitos, quando veem que o diploma que t\u00eam n\u00e3o lhe garantem emprego, fazem um monte de cursos sem nenhum plano ou objetivo espec\u00edfico. \u00c9 essa a percep\u00e7\u00e3o do senhor, de que h\u00e1 tanta oferta hoje que as pessoas at\u00e9 ficam um pouco meio perdidas sobre o que e onde estudarem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sem d\u00favida. Outra facilidade que virou dificuldade \u00e9 a quantidade de cursos superiores diferentes que hoje existem no Brasil. N\u00e3o tenho n\u00famero certo, mas a \u00faltima vez que vi a listagem do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o contei quase 180 cursos diferentes. Ou seja, as gera\u00e7\u00f5es anteriores tiveram que optar por, no m\u00e1ximo, uma d\u00fazia de cursos. Hoje, h\u00e1 180. No meio desse total, existem certos cursos que t\u00eam nomes muito atrativos, como oceanografia e engenharia ambiental. \u00c9 claro que os jovens veem esses cursos e pensam, &#8220;que legal, vou estudar engenharia ambiental porque ajudarei a melhorar o mundo&#8221;. Mas, ao se formarem, descobrem que n\u00e3o existe tantas vagas para comportar todos os formandos desse curso. A\u00ed ele pensa, &#8220;vou fazer mais cursos, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, interc\u00e2mbio&#8230;&#8221;. E a situa\u00e7\u00e3o vai ficando cada vez complicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Algo que eu sempre sugeri \u00e9: fa\u00e7a um curso conservador, administra\u00e7\u00e3o, por exemplo. Comece a trabalhar e, depois, dentro da empresa, veja para onde voc\u00ea se encaminha e comece a fazer cursos de especializa\u00e7\u00e3o naquela \u00e1rea. Porque a\u00ed voc\u00ea tem plano, dire\u00e7\u00e3o e futuro. N\u00e3o \u00e9 preciso colocar isso necessariamente no papel e dizer: daqui um ano ou dois anos, eu vou fazer isso. Mas \u00e9 preciso ter uma dire\u00e7\u00e3o e, para isso, \u00e9 muito melhor come\u00e7ar com um curso mais gen\u00e9rico e depois ir particularizando com o passar do tempo e da situa\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria pessoa desenvolve para ela dentro da empresa. Em vez de ficar achando que uma tonelada de diploma vai compensar a falta de um quilo de experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Voc\u00ea v\u00ea certa impaci\u00eancia dos jovens? No sentido de se frustrarem rapidamente, exigir uma promo\u00e7\u00e3o ou ascens\u00e3o r\u00e1pida ou n\u00e3o estarem satisfeitos com o chefe direto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vejo, sim. Sempre disse para mim mesmo que talvez tenha vindo de uma das \u00faltimas gera\u00e7\u00f5es, sen\u00e3o a \u00faltima, que n\u00e3o tinha ambi\u00e7\u00e3o quando era jovem. Com pais \u2014 como era meu caso \u2014 que s\u00f3 tinham conclu\u00eddo quatro anos de escola, ter um filho que fizesse oito anos de escola j\u00e1 era o dobro do que eles tinham conseguido. Hoje, oito anos de escola n\u00e3o \u00e9 nada. Nunca fui cobrado em casa a estudar, para que com aquele estudo conseguisse uma posi\u00e7\u00e3o de comando em uma empresa.\u00a0 Hoje, parece que as pessoas se formam e ja entram em uma empresa esperando a primeira promo\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma certa impaci\u00eancia para que as coisas aconte\u00e7am.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Como \u00e9 o jeito certo de esperar por uma promo\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Acho que todo mundo esquece quem tem uma carreira estupidamente bem-sucedida no mercado de trabalho \u2014 em 25 ou 30 anos \u2014 vai ser promovido no total de sete vezes. Lembrando que isso \u00e9 sem contar aquelas promo\u00e7\u00f5es que parecem promo\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o s\u00e3o, de auxiliar j\u00fanior para auxiliar pleno, para auxiliar s\u00eanior etc. No fundo, continua sendo auxiliar. Porque sempre falo para as pessoas que existem dois tipos de promo\u00e7\u00e3o. O primeiro \u00e9 quando voc\u00ea n\u00e3o manda em ningu\u00e9m e ent\u00e3o passa a mandar. A segunda promo\u00e7\u00e3o ocorre quando a pessoa que \u00e9 seu subordinado passa a ter um subordinado tamb\u00e9m. Isso vai ocorrer ao menos sete vezes para voc\u00ea chegar \u00e0 presid\u00eancia de empresa. Agora, se vai ocorrer sete vezes em trinta anos, n\u00e3o adianta querer que aconte\u00e7a quatro vezes em cinco anos. Ent\u00e3o, h\u00e1 esse certo desespero de &#8220;j\u00e1 estou trabalhando h\u00e1 tr\u00eas anos e ainda n\u00e3o fui promovido&#8221;. Por um lado, existe a soma da ambi\u00e7\u00e3o de que a coisa aconte\u00e7a, e todo jovem tem direito de ser ambicioso. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m a pressa para que isso aconte\u00e7a. A ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o prejudica, a pressa sim. E a\u00ed, no fim, coloca toda a culpa por algo n\u00e3o acontecer no chefe.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Os chefes t\u00eam alguma &#8216;culpa&#8217; nessa hist\u00f3ria. H\u00e1 muita gente que defende que, com a mudan\u00e7a nas estruturas corporativas tradicionais, os chefes n\u00e3o sabem lidar com a gera\u00e7\u00e3o Y. O senhor acredita nisso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o, n\u00e3o acho isso. Sempre digo, principalmente quando falo para jovens, que nenhum empregado no mundo at\u00e9 hoje, nem no Brasil, foi admitido por uma empresa tendo como uma de suas atribui\u00e7\u00f5es avaliar o desempenho do chefe. E essa \u00e9 justamente a primeira coisa que todo mundo faz. O cara est\u00e1 dez dias na empresa e j\u00e1 est\u00e1 dizendo que seu chefe \u00e9 incompetente. E ele n\u00e3o percebe que \u00e9 como se dissesse que a pessoa que promoveu seu chefe, que deve ter 15 ou 20 anos de empresa e ocupa um cargo de gest\u00e3o, promoveu seu chefe de maneira errada. \u00c9 pensar: ele n\u00e3o merecia e eu, que acabei de chegar, estou come\u00e7ando agora a carreira e j\u00e1 tenho condi\u00e7\u00f5es de avaliar que meu chefe \u00e9 incompetente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por outro lado, todo mundo que chega no mercado de trabalho, chega com um tipo de educa\u00e7\u00e3o em casa que ja n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feroz como foi em gera\u00e7\u00f5es passadas. O jovem hoje tem mais liberdade para falar, agir, pensar, passear, ir para rua, fazer passeata e essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se replica numa empresa. Existe a necessidade de se acostumar com isso. Ou seja, ver que entrou num mundo diferente. Esse universo empresarial \u00e9 diferente do universo que eu conheci, \u00e9 mais herm\u00e9tico, os chefes s\u00e3o mais severos porque s\u00e3o cobrados pelos resultados. Ent\u00e3o, na minha cabe\u00e7a, eu pensaria que caberia a mim, como subordinado, fazer com que o chefe saia bem na fita. E n\u00e3o ficar avaliando se ele \u00e9 o chefe que eu gostaria de ter ou n\u00e3o. Isso foi o que o destino me deu por enquanto. Vou aproveitar esses meses ou anos que passarei no emprego para aprender o m\u00e1ximo que posso e, um dia, quando me tornar chefe, tratarei as pessoas do modo que eu gostaria de ter sido tratado no meu primeiro emprego.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Em outro t\u00f3pico do livro, o senhor discorre sobre emo\u00e7\u00e3o, incentivando que as pessoas demonstrem seus sentimentos no ambiente corporativo e, defendendo, que &#8220;at\u00e9 jesus chorou&#8221;. H\u00e1 um limite ou ideal entre o funcion\u00e1rio que s\u00f3 responde &#8220;sim&#8221; e aquele que expressa ativamente o que sente e acha?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Varia muito de empresa para empresa. Tem empresa que n\u00e3o aprecia muito manifesta\u00e7\u00f5es emocionais durante o expediente, \u00e9 mais r\u00edgida. Existem outras que incentivam. Trabalhei nos dois tipos. Em uma a emo\u00e7\u00e3o parecia livre, as pessoas podiam se abra\u00e7ar de manh\u00e3 quando chegavam para trabalhar. E em uma outra, t\u00ednhamos de ficar a tr\u00eas metros um do outro. Eu sempre gostei mais de trabalhar em empresas onde as emo\u00e7\u00f5es brotassem mais facilmente, porque assim a gente aprendia a conhecer melhor o outro. E tenho a impress\u00e3o de que a pessoa que consegue manter um padr\u00e3o assim de seriedade, oito horas por dia, n\u00e3o est\u00e1 revelando quem ela realmente \u00e9. Todos n\u00f3s somos mais ou menos emocionais. Quando eu trabalhava em empresa, chorava muito. Chorava principalmente em momentos de alegria, era quando meus olhos lacrimejavam. A gente tem tantas emo\u00e7\u00f5es que ocorrem, pelo bem ou pelo mal, e que a gente precisa desabafar. Mas existem v\u00e1rias maneiras. Tem gente que acha que \u00e9 melhor desabafar dando soco na parede, chutando cesto de lixo ou ofendendo o pr\u00f3ximo. \u00c9 uma decis\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Ou seja, entender o que aquele ambiente exige, sem ficar muito preso a uma estrutura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 entender o que n\u00f3s somos e o que a empresa espera que n\u00f3s sejamos. E quando as coisas definitivamente n\u00e3o batem, a\u00ed sim, est\u00e1 na hora de ir para outro lugar. \u00c9 quase imposs\u00edvel algu\u00e9m que diz, &#8220;eu trabalho em empresa que \u00e9&#8230;&#8221; e, a\u00ed, d\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o que n\u00e3o bate em quase nada com o que a pessoa \u00e9. Na minha cabe\u00e7a, \u00e9 mais ou menos \u00f3bvio que o funcion\u00e1rio n\u00e3o vai conseguir mudar a empresa \u2014 ele \u00e9 que precisa mudar em fun\u00e7\u00e3o da empresa. E se ele sentir que isso vai ser imposs\u00edvel, precisa procurar uma empresa que seja mais parecida com ele. \u00c9 por isso que existe uma coisa chamada entrevista. Esse &#8220;entre&#8221;, primeira parte da palavra, significa &#8220;duas m\u00e3os&#8221;. Todo mundo imagina que em uma entrevista \u00e9 s\u00f3 para responder o que perguntam, quando na verdade \u00e9 pensar em quais perguntas fazer para a empresa. Assim, a pessoa tamb\u00e9m pode tomar uma decis\u00e3o se for chamada, pensar se aquele \u00e9 um lugar em que ela realmente quer trabalhar. Mas pouca gente faz isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Em outro t\u00f3pico, o senhor comenta especificamente sobre castigo e obedi\u00eancia e cita um trecho b\u00edblico que diz: \u201cPrudente v\u00ea o perigo e toma precau\u00e7\u00f5es, mas o ing\u00eanuo segue adiante e paga o pre\u00e7o&#8221;. O que \u00e9 ser um funcion\u00e1rio ing\u00eanuo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 simplesmente uma quest\u00e3o de tomar decis\u00f5es. Quando a gente \u00e9 jovem e tem o primeiro namorado\/namorada, sempre pensamos antes no que falar para convenc\u00ea-lo a sair conosco. Mas a\u00ed, quando chegamos l\u00e1 e dizemos a primeira coisa e vemos que a resposta n\u00e3o \u00e9 o que esper\u00e1vamos, tudo vira geleia. Porque ingenuamente nos preparamos para uma \u00fanica situa\u00e7\u00e3o e uma \u00fanica resposta. Defino isso como ingenuidade. \u00c9 n\u00e3o ver tudo que pode decorrer de uma atitude, de uma decis\u00e3o que tomamos. O s\u00e1bio pensa em cinco consequ\u00eancias \u2014 e solu\u00e7\u00f5es \u2014 diferentes. Para mim, a sabedoria \u00e9 esse ac\u00famulo ou de experi\u00eancia ou de prepara\u00e7\u00e3o para algo que talvez possa acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Falando especificamente sobre aumento, no t\u00f3pico a respeito disso no livro, o senhor cita um trecho b\u00edblico que diz: &#8220;Voc\u00eas pedem e n\u00e3o recebem porque pedem mal, para consumir seus pr\u00f3prios prazeres&#8221;. De que modo isso se aplica no mercado de trabalho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 claro que essa frase n\u00e3o foi escrita para quem est\u00e1 pedindo um aumento. Agora, aplicada ao mercado de trabalho, significa: se voc\u00ea pede errado, voc\u00ea n\u00e3o recebe. O que \u00e9 pedir errado? \u00c9 pedir um aumento para resolver um &#8220;problema meu&#8221;, &#8220;como funcion\u00e1rio&#8221;. E n\u00e3o um problema da empresa. \u00c9 eu chegar e dizer: &#8220;eu preciso de um aumento, porque eu n\u00e3o consigo pagar a conta no final do m\u00eas&#8221;. Esse n\u00e3o \u00e9 um problema da empresa. &#8220;Eu preciso de um aumento porque n\u00e3o tenho dinheiro para pagar a faculdade.&#8221; Isso n\u00e3o \u00e9 um problema da empresa. &#8220;Eu pedi um aumento porque recebi uma proposta de uma outra empresa e estou mudando de emprego.&#8221; Esse \u00e9 um problema da empresa. Quando o problema \u00e9 da empresa ou quando ela reconhece que pode ter um problema, como pior exemplo, perder um bom funcion\u00e1rio, \u00e9 muito mais receptiva a ouvir um pedido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Agora, se o funcion\u00e1rio acha que merece um aumento, n\u00e3o est\u00e1 tendo e quer fazer algo a respeito, a melhor atitude sempre \u00e9 n\u00e3o pedir diretamente pelo aumento, porque todo chefe tem uma resposta pronta para essa pergunta: n\u00e3o. E a\u00ed ele cita qualquer motivo que vier \u00e0 cabe\u00e7a dele. O que sugiro \u00e9 sempre pedir por uma oportunidade. Existe uma diferen\u00e7a enorme entre dizer: eu queria um aumento ou o que eu preciso fazer nos pr\u00f3ximos seis meses para merecer um. Isso porque, no fim, eu estarei dizendo para a empresa o seguinte: eu pretendo nesse meio de tempo mostrar que o resultado do meu trabalho vai pagar um aumento que eventualmente a empresa me der. E a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 chefe que n\u00e3o seja receptivo a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>O momento que vemos hoje no mercado de trabalho \u00e9 de enxugamento de custo geral, demiss\u00f5es em massa e sobrecarga. Vemos muitas pessoas reclamando que est\u00e3o sobrecarregadas ap\u00f3s algu\u00e9m da equipe ser demitido. Qual conselho voc\u00ea d\u00e1 para esses profissionais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Passei por diversas crises econ\u00f4micas enquanto trabalhava em empresas e posso dizer que as melhores oportunidades que tive na carreira surgiram em tempo de crise. Naqueles tempos que n\u00e3o h\u00e1 muito dinheiro e quando todo mundo precisa se esfor\u00e7ar um pouco mais, ter ideias, apresentar sugest\u00f5es. Finalmente, quando termina um per\u00edodo de crise, vem o per\u00edodo de calmaria e \u00e9 quando fica muito claro quem se esfor\u00e7ou para ajudar a empresa naquela situa\u00e7\u00e3o ou quem s\u00f3 ficou reclamando. Esse \u00e9 um per\u00edodo que temos que passar em qualquer empresa, para apreciar melhor os momentos bons na carreira. \u00c9 l\u00f3gico que \u00e9 muito melhor ficar empregado mesmo tendo de trabalhar por dois do que perder o emprego. Mas um ponto aqui que sempre aconselhei as pessoas: se voc\u00ea se preparar muito bem para ser demitido, dificilmente vai ser. Se estudar tudo que tem de estudar, fazer cursos complementares, mostrar que \u00e9 esfor\u00e7ado no trabalho, dificilmente voc\u00ea vai ser dispensado. Mas se voc\u00ea for, ser\u00e1 a pessoa mais bem preparada para arrumar um emprego.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Mesmo com a crise econ\u00f4mica fechando diversas empresas e setores sendo esvaziados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 logico que pode ter um componente de azar e as pessoas s\u00e3o demitidas por v\u00e1rias raz\u00f5es \u2014 tecnol\u00f3gicas, por exemplo. Mas as que est\u00e3o preparadas para fazer tr\u00eas ou quatro coisas podem ser remanejadas internamente. Eu preferiria que ningu\u00e9m fosse demitido, que houvesse pleno emprego, que as estat\u00edsticas mostrassem pouca gente desempregada, mas entendo que no Brasil temos uma crise atr\u00e1s da outra. Esse pa\u00eds \u00e9 coisa de louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Eu me lembro da minha \u00e9poca de executivo, que toda vez que a gente ia apresentar os planos para aquele ano, algu\u00e9m dizia: &#8220;esse ano vai ser at\u00edpico&#8221;. E ent\u00e3o era quando eu retrucava: &#8220;explica para mim o que \u00e9 um ano t\u00edpico no Brasil?&#8221; \u00c9 um ano que tem infla\u00e7\u00e3o alta, baixa, d\u00f3lar alto, emprego para todos, emprego para ningu\u00e9m. N\u00f3s n\u00e3o conseguimos definir no Brasil o que \u00e9 um ano t\u00edpico. N\u00f3s n\u00e3o somos a Su\u00ed\u00e7a. Esse \u00e9 um pa\u00eds que n\u00f3s temos que estar sempre preparados para que, mesmo que as coisas estejam indo bem, em um determinado momento, elas podem n\u00e3o ir. E a\u00ed, pensar o que far\u00edamos a respeito. Quer dizer, n\u00e3o se acomodar nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-size: small;\">Por Barbara Bigarelli \/ Fonte: \u00c9poca Neg\u00f3cios<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialista em carreira e gest\u00e3o empresarial, Gehringer comenta sobre seu novo livro, diz que a atual crise pode oferecer oportunidades profissionais e pede paci\u00eancia aos jovens que est\u00e3o entrando no mercado de trabalho. 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